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Notícia - Roteiros

Caminho da Fé, mais de 400 km de bicicleta
Caminho da Fé, muito mais do que o “Caminho de Santiago brasileiro”

Pouco mais de dois anos atrás, em maio de 2019, vivi a experiência mais espetacular da minha vida – pelo menos até agora: Entre os dias 06 e 21 daquele mês, percorri o milenar Caminho Francês de Santiago de Compostela, totalizando 934 quilômetros de distância entre Saint Jean Pied-Port, no Sul da França, e Finisterra, na Espanha. Foram 15 dias que nunca vão sair da minha memória pelo fato de terem sido muito mais do que uma cicloviagem, mas uma grande vivência.
Pedalei, empurrei bicicleta, ri, chorei, passei por dias de muito frio (e até neve) e outros tantos de calor veranesco em plena primavera, mas os muitos aprendizados é que ajudaram a deixar essa bicigrinação ainda mais especial. Um deles, que o mundo é grande demais, enquanto a vida é demasiadamente curta, para nos privarmos de muitas coisas pelo simples medo de tentar. Antes mesmo de voltar para casa, decidi que, pelo menos uma vez por ano, sempre faria o possível para colocar minha bicicleta e minha bagagem na estrada novamente. E, nesse pensamento, concluí que a próxima viagem deveria ser o Caminho da Fé – rota brasileira inspirada justamente na milenar e mundialmente conhecida peregrinação europeia.
A ideia era realiza-la exatamente um ano depois, mas a pandemia não deixou. Com a ampliação da vacinação e estabilização do número de casos, recentemente tive a felicidade de concluir o CF em 10 dias e, antes mesmo de começar a relata-lo por aqui, já afirmo a você leitor: O Caminho da Fé é muito mais do que simplesmente “o Caminho de Santiago brasileiro”. As belezas das paisagens rurais de terras mineiras e paulistas, a excelente e carinhosa receptividade nas pousadas, hotéis e outros estabelecimentos comerciais, além da dedicação de centenas de pessoas para a manutenção dessa rota fazem com que ela seja tão especial quanto aquela que a inspirou, além permitir que o peregrino ou bicigrino conheça um país muito diferente do que se pode desenhar com o olhar opaco e cansado da correria do nosso dia a dia.
A história do Caminho da Fé
Em 2003, após retornar da segunda peregrinação na Espanha, o paulista Almiro Grings, com o apoio dos amigos Clóvis Tavares e Iracema Tamashiro, decidiu criar algo semelhante por aqui, tendo como destino final o Santuário Nacional de Aparecida, em São Paulo. Juntos, apoiados ainda por outros voluntários, deram início aos primeiros contatos com prefeituras e paróquias das cidades por onde passaria a trilha. Com ajuda de um mapa e partindo de Águas da Prata (SP), foi imaginado um caminho que chegasse até Aparecida privilegiando a rota mais lógica e que atendesse ao perfil peregrino. Estradas vicinais, trilhas, bosques e vias asfaltadas compõem o ramal original do Caminho da Fé, que compreende 320 quilômetros autoguiados, onde o caminhante ou ciclista só precisa seguir as setas amarelas e as placas para, a cada curva dobrada ou morro vencido, se surpreender com belezas naturais que inspiram a seguir sempre adiante.
Outras semelhanças
Assim como em Santiago, cuja história teve início com apenas uma rota, naquele caso, o Caminho Primitivo, e hoje há dezenas de possibilidades de se chegar ao templo em homenagem ao apóstolo, o CF não ficou restrito a Águas da Prata. Com o passar dos anos e o cada vez maior interesse nas caminhadas ou pedaladas até Aparecida, outras cidades passaram a investir na sinalização e estruturação para atender o peregrino ou bicigrino. Hoje, são 14 ramais. Desses, 11 obrigatoriamente se conectam ao principal em Águas e outros três em outros pontos mais à frente. O mais recente e maior é o de São José do Rio Preto, com 893km de extensão. Outra semelhança com o trajeto espanhol é a utilização de uma credencial e obtenção de carimbos em estabelecimentos comerciais, capelas e igrejas para a obtenção de um certificado ao final.
Os ícones do CF
Sobre o carinho dispensado ao caminhante ou ciclista, é igual ou maior do que encontrei ao longo do Caminho Francês de Santiago de Compostela. A dedicação de dezenas de pessoas ao CF, aliás, é fundamental para que a cada dia ele fique mais conhecido e procurado por gente de todo o país e até do exterior. Jucemar, Maurão, Cidinha, Natalina, Poka e Zezé, Inês, Elza, Thiago “Constantino”, Wagner, Carlão, Fadel… Quando começar a percorrer ou vivenciar essa rota, pode apostar que esses e alguns outros serão nomes irá ouvir ou ler durante todo o tempo. E, já adianto, se na sua jornada não der pelo menos uma paradinha no Bar do Maurão, em Inconfidentes, ou na pousada da dona Natalina, em Barra, por exemplo, você estará fazendo o Caminho da Fé de maneira errada…
As hospedagens
Nesse quesito, há grandes diferenças. Por aqui, não é necessário levar roupa de cama ou banho, sendo sempre disponibilizado em cada hospedagem. Enquanto no caminho jacobeu os albergues são quase que unanimidade, em terras brasileiras as pousadas são mais comuns, oferecendo quartos individuais ou coletivos – mas esses com número de camas muito menor do que as tradicionais hospedagens espanholas. Em algumas cidades, mesmo os hotéis maiores fazem preço diferenciado para quem está se dirigindo para Aparecida do Norte. Em Monte Santo de Minas, por exemplo, o Hotel São José me cobrou apenas R$ 75 pela dormida, jantar e café da manhã.
A magia da Natureza
As belezas cênicas encontradas ao longo de quase todo o Caminho da Fé são outro diferencial que ajudam a confirmar o título dessa reportagem. As íngremes e frequentes subidas acabam remediadas com tantos cenários espetaculares ao longo dos muitos quilômetros percorridos, com as características se modificando de acordo com a região. Das plantações de morango em Estiva aos fragmentos de Mata Atlântica na região da Luminosa, há muito que ver e sentir. A beleza da Serra do Caçador e o geladinho da montanha em Campos do Jordão, já batendo os quase dois mil de altitude, são inesquecíveis.
É muito morro
Finalizada minha bicigrinação, posso afirmar que o Caminho de Santiago é um “passeio” perto do CF. Apesar da distância maior entre França e Espanha, a grande quantidade de morros para se vencer – para cima ou para baixo – faz com o nosso Caminho seja muito mais exigente fisicamente. Serra dos Lima, Luminosa, Serra da Fartura, Morro do Sabão, Porteira do Céu, Pantâno dos Teodoros, Morro do Gavião, Caçador, além de dezenas de outros que “não são tão famosos”, cobram esforço máximo em praticamente todas as etapas, a pé ou de bicicleta. Para se ter uma ideia, na Europa percorri 934 quilômetros e 14 mil de altimetria. Entre Minas e São Paulo, foram 690 e quase 16 mil.
O ramal Franca
Entre tantas possibilidades, escolhi percorrer o ramal Franca. Além de mais distância me permitir um tempo maior de vivência, me interessei nas pequenas cidades entre MG e SP e as culturas de produção rural diferentes que poderia encontrar. Após 10 dias e tantos quilômetros pedalados, confirmei que havia feito a escolha certa. A partir de Franca, em São Paulo, comecei a cruzar as lavouras de cana de açúcar, os cafezais e até plantações de abacate, sem esquecer a “assustadora” floresta de eucalipto entre Arcerburgo e Igaraí. Cada dia pedalado renderia um texto como esse, tamanha a riqueza de detalhes. Pequenas e organizadas cidades como Monte Santo de Minas ou povoados com Milagres me encantaram. Tudo isso antes de chegar ao ramal principal.
Estrutura melhor
De Águas da Prata em diante, os cenários e a estrutura mudam. Na primeira etapa que percorri, por se tratar de um trecho relativamente novo e bem menos frequentado, as setas já precisam ser refeitas e existem alguns segmentos muito longos e sem nenhum ponto de apoio, ou seja, para comprar ou pedir água e comida. Passei dificuldade nesse sentido entre Itirapuã e São Tomás de Aquino, e entre São Sebastião do Paraíso e Itamogi. Quando se chega a cidade de Águas, a impressão é que estamos em “outro caminho”. Não faltam setas, locais para se hidratar ou alimentar e aumentam bastante as possibilidades de hospedagem.
Seja intenso
Mais uma dica é treinar bastante antes de iniciar o CF, a pé ou de bicicleta. Condicionado, acostumando a carregar seu peso nas costas ou no bagageiro, irá vencer os desafios diários com mais facilidade e consequentemente aproveitar melhor tantas experiências possíveis ao longo do Caminho. Seja intenso antes, na preparação, durante, nas vivências e semelhanças com a vida, e depois, colocando em prática tudo o que aprender nos vários dias de estrada. “Viva o que te faz feliz”, indica uma plaquinha motivacional logo depois de Estiva. Uma das muitas, aliás, mas a que mais me marcou nessa emocionante jornada até o Santuário de Aparecida. Para ver mais sobre os relatos diários e fotografias, acesse @mochileiro_marcello no Instagram. Para obter mais detalhes de cada ramal, com quilometragem total, distância entre paradas e indicações de hospedagem e restaurante, viste o site do caminho da Fé.

Autor: ALTA MONTANHA
Data: 04/10/2021